Um homem magro, com semblante abatido, vestindo jeans e uma camiseta. A barba por fazer e o olhar de quem estava há dias sem dormir. A mão trêmula ao cumprimentar deixa claro que ele chega para um momento difícil. Na verdade, mais uma decisão difícil.
Foi assim que recebi o Sr. José, 50 anos, um profissional autônomo, na portaria dos estúdios da RECORD, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, para uma entrevista com a repórter Paloma Poeta para uma reportagem do Domingo Espetacular. José é pai de Matheus Avelino, 24 anos, um jovem morador da periferia da zona leste de São Paulo, que foi preso acusado de preparar atos terroristas.
Ainda na recepção, suas mãos trêmulas se entrelaçam, e quase como uma súplica, ele diz que se dispôs a falar para trazer um recado importante, embora óbvio: precisamos ficar atentos aos nossos filhos. Junto a esse recado, faz um pedido: que sua identidade não seja revelada. “Moro em um lugar perigoso, temo que as pessoas se revoltem e tentem atacar a mim e minha família.” Por esse motivo, adotamos José como nome fictício.
Foi a atenção do Sr. José com seu filho que o levou a tomar a decisão mais difícil de sua vida.
Na manhã de 12 de março, em uma tentativa de buscar ajuda, ele procura atendimento em um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Ali, ele é atendido por um psicólogo que ouve seus relatos. Desesperado, ele explica ao médico que tem um filho de 24 anos, que mantém armas e munições em seu quarto. José é orientado a procurar uma delegacia e repetir o que havia relatado ao médico.
“Há cerca de dois anos, meu filho passou a demonstrar um interesse obsessivo pela religião islâmica, estudando-a minuciosamente, por meio de materiais obtidos pela internet. Em seu quarto, ele tem uma espingarda calibre 12, uma balestra e um rifle, todos armamentos de fabricação caseira, além de uma granada, colete e capacete balístico e bandeiras.”

No relato ao delegado, José conta que passou anos observando a transformação do filho e, com o tempo, Matheus foi adotando um discurso extremista, isolando-se da família e passando a demonstrar um comportamento cada vez mais agressivo.
Ele falava que a polícia era inimiga, que um dia faria justiça. Passava o tempo todo no quarto, trancado. Eu não sabia mais o que fazer.
José já não entrava no cômodo onde seu filho dormia. Durante meses, Matheus viveu isolado no segundo andar da residência da família, onde acumulava armas, munições e explosivos caseiros. O espaço onde dormia e planejava seus atos estava protegido por uma porta reforçada com fios de aço, impedindo uma invasão direta da polícia.
Com esse relato, foi planejada, com o auxílio do GER (Grupo Especial de Reação) da Polícia Civil de São Paulo, uma operação para prender Matheus. “Só não matem meu filho”, pediu José aos policiais.
Foi assim que, com a ajuda de José, começou o planejamento de maneiras para abordar Matheus, como ele contou e mostramos na reportagem exibida pelo Domingo Espetacular no último domingo (23).
Matheus foi preso e sua família agora tenta convencer a Justiça de que seus atos eram, na verdade, fruto de uma obsessão possivelmente agravada por um transtorno do espectro autista, que nunca foi tratado adequadamente. “Gostaríamos que Matheus fosse submetido a uma avaliação psiquiátrica e que a Justiça entenda que ele não deva ir para um presídio, mas sim para um hospital psiquiátrico, para receber a ajuda que precisa.”
José relatou que, ainda adolescente, Matheus fazia consultas regulares com um psicólogo e um psiquiatra, mas, em determinado momento, desistiu do tratamento. Nos escritos de Matheus, é possível notar comentários que fazem referência a uma vida social marcada por bullying e agressões, experiências que foram canalizadas para seus planos.
Hoje, José relata que não dorme e não consegue trabalhar direito desde o dia em que seu filho foi preso. Mas, ao mesmo tempo, tem a consciência de que fez o que podia para garantir o melhor para Matheus. Mesmo assim, a tristeza e as lágrimas o fazem interromper a entrevista e sentar no chão.
“Tem sido muito difícil. Minha vida virou de cabeça para baixo, assim como a de minha esposa, meu outro filho e também do Matheus. Porém, eu sinto no meu coração que ele está calmo agora, está tranquilo, porque foi tirado de um lugar que estava contaminando de forma doentia, de forma perversa, a mente do meu filho.”

Isolamento social e internet
“Às vezes, nossos filhos estão isolados na sala, no quarto, em um corredor, ou em qualquer outro canto da casa, sozinhos com seu celular ou computador. E, em muitos casos, você já não tem mais acesso a esse espaço, e o perigo pode estar rondando a mente do seu filho, aquele que você tanto ama”, reflete José, com lágrimas nos olhos, ao falar sobre tudo o que aconteceu com seu filho.
Essa reflexão de José retrata a realidade das relações entre pais e filhos, tanto no Brasil quanto no mundo. Ela ganhou ainda mais destaque nos últimos dias com a repercussão da série Adolescência, exibida globalmente em um serviço de streaming. Na trama, um jovem é preso pela polícia após cometer um assassinato, e o enredo ressalta a dificuldade de conexão entre pais e filhos adolescentes.
Para o perito em cibersegurança e mestre em criminologia André Gomes Lopes, a geração de pais que não tem o pleno domínio da tecnologia, como os jovens, precisa se adaptar e buscar conhecimento para lidar com os conflitos de uma geração superconectada.
“Achar que, porque o filho está trancado no quarto mexendo no computador, ele está seguro, é um engano. Você jamais deixaria seu filho ficar em uma área de risco, ou até mesmo em uma avenida Paulista, por quatro horas, sozinho e sem supervisão, certo? No entanto, você deixa seu filho, por 4 ou 5 horas, abandonado usando a internet. Isso precisa mudar”
Ele também defende que os pais devem manter sempre a maior abertura e diálogo com seus filhos, para evitar que eles escondam situações difíceis e angústias. “Se o seu filho estivesse passando por um problema agora, ele te contaria?”, questiona.
Terrorismo, extremismo e cooptação de jovens
Na reportagem exibida pelo Domingo Espetacular, também mostramos o caso de Ciro Daniel Amorim. Aos 34 anos, dez a mais que Matheus, Ciro viveu um exílio dentro de seu próprio quarto desde a juventude, um comportamento cujo motivo só foi esclarecido recentemente, em janeiro deste ano. Economista, ele foi incluído pelo governo dos Estados Unidos na lista de terroristas do país.
Ciro foi identificado como administrador de um grupo em um aplicativo de mensagens dedicado à disseminação de conteúdos extremistas, especialmente ligados ao nazismo e à supremacia branca. Pelo menos três ataques foram planejados com suporte e orientações desse grupo, conhecido como Terrorgram.
Investigações apontam que jovens brasileiros envolvidos em ameaças de ataques faziam parte dessas comunidades coordenadas por Amorim, que atualmente está internado em uma clínica para tratamento de dependência química no interior de São Paulo.
Segundo o especialista em inteligência e contra-inteligência Brian Benigno, grupos extremistas e terroristas têm utilizado cada vez mais as plataformas digitais para aliciar e cooptar jovens para suas causas.
“Nesses ambientes, a pessoa consegue manter um certo grau de anonimato, o que facilita a disseminação de ideologias extremistas e a captação de novos membros. Quanto mais proteção e privacidade o aliciador possui — seja na Dark Web ou na Deep Web —, mais à vontade ele se sente para buscar alvos”, explica Benigno. Ele destaca que a necessidade de pertencimento é uma das principais vulnerabilidades exploradas por esses grupos.
Quando um indivíduo se radicaliza e passa a integrar comunidades extremistas em redes sociais como o Terrorgram, esse senso de pertencimento é reforçado. A partir daí, técnicas de engenharia social são utilizadas para que ele adira aos ideais do grupo — muitas vezes, extremistas e potencialmente letais.
Para a Polícia Federal, muitos dos indivíduos que chegam ao ponto de planejar atentados e atos criminosos são considerados Evim (Extremistas Violentos Ideologicamente Motivados). Geralmente, sua radicalização tem origem na cooptação feita pela internet, podendo incluir até o financiamento de integrantes dispostos a planejar e cometer crimes em nome de uma causa.
Em 2024, segundo a Polícia Federal, foram instauradas 288 investigações sobre crimes cibernéticos de ódio relacionados ao extremismo violento. O órgão ressalta que as redes sociais vêm sendo cada vez mais utilizadas para aliciar jovens e inseri-los em grupos de ideologias radicais.
Além disso, a Polícia Federal tem coordenado operações em todo o Brasil para combater ataques motivados por raça, religião, procedência regional, etnia ou orientação sexual. Muitas dessas ações são realizadas em parceria com as polícias estaduais e até com forças de segurança de outros países.
Para prevenir a radicalização de jovens, a PF também conduz um projeto voltado ao público infantil e às famílias, promovendo palestras sobre crimes cometidos na internet por meio do programa Guardiões da Infância.

- Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Beatriz Ciofii
- Coordenadora de Produções Originais: Renata Garofano
- Coordenadora de Arte Multiplataforma: Sabrina Cessarovice
- Arte: Gabriel Marques
- Repórter Investigativo: Márcio Neves
- Repórter: Paloma Poeta
- Editora de texto: Anna Karina Bernardoni
- Editora chefe: Angelica Mansani
- Editor chefe: Bruno Chiarioni
- Chefe de produção: Josimara Zappi
- Diretor de Desenvolvimento de Núcleo: Celso Teixeira